Apresentação – A Ordem – Volume 93

Apresentação

Tarcísio Padilha

Diretor de A Ordem

A Igreja Católica, com a morte de João Paulo II e a eleição de Bento XVI, vive um momento histórico. O Papa polonês deixo marcas profundas em seu longo pontificado: ampliou as fronteiras da fé em suas peregrinações pelos cinco continentes, confirmou os cristãos, legou um precioso tesouro doutrinário distribuído em encíclicas, exortações apostólicas, cartas pastorais, discursos e homilias.

João Paulo II foi uma presença mundial, certamente o primeiro homem global. A constatação se deveu às suas excepcionais virtudes de comunicador, à sua biografia límpida sempre em favor dos fracos, oprimidos e carentes, do respeito a cada ser humano, à sua luta em prol da família, da paz e da liberdade de consciência religiosa, ao seu intento de dialogar com todas as religiões e às palavras dirigidas a todos os homens, sem qualquer laivo de discriminação.

Para lhe compreender a obra ciclópica impende realçar sua condição de polonês. A Polônia sorveu o cálice amargo de ocupações sucessivas de seu território, ao longo de toda a sua história. E, a partir da II Guerra Mundial, o nazismo e o stalinismo se deram as mãos e novamente sufocaram o heróico povo.

É relevante sublinhar a força do patriotismo do povo polonês. A religião católica se confundia com a luta pela independência da Polônia. Patriotismo e religião se mesclaram na modernidade do país eslavo, o que explica a força de João Paulo II nos recentes fastos da história polonesa. O então cardeal Ratzinger bem compreendeu ao afirmar: “mesmo quando a Polônia não existia como Estado, o país existiu como Polônia através da Igreja”.

A terra do Papa desaparecido é atravessada pelo rio Vístula que, simbolicamente, separa o Oriente do Ocidente, daí uma abertura para dois mundos, no sentir de Grygiel, um amigo dileto de João Paulo II.

Tive o privilégio de conhecer o Santo Padre em novembro de 1978, logo após sua eleição ocorrida em 16 de outubro daquele ano, e me foi dada a oportunidade de servir num dos dicastérios da Cúria Romana por muitos anos e, assim, viver momentos inolvidáveis com o Santo Padre. Pude sentir-lhe o carisma, a comunicação imediata a tocar as fímbrias da alma de qualquer interlocutor. E em numerosos encontros, ao longo de vinte e seis anos, cheguei a vê-lo em sua capela particular, em atitude de imersão plena no diálogo com Deus, por maneira a oferecer a impressão forte de que ele não estava ali.

Senti-lhe ainda a presença ao conhecer alguns de seus amigos mais chegados, como o Pe. Tadeuz Styczen, seu sucessor na cátedra de Ética da Universidade de Lublin (também somos colegas da Academia Internacional de Filosofia), Stanislaw Griegel, escritor fecundo servido por um estilo literário de rara beleza (a quem o Papa convidou para morar em Roma a poucos metros do Vaticano), o Pe. Jozef Tischner, fundador do Institut für die Wissenschaften vom Menschen (IWM), sediado em Viena. Sem falar no professor S. Swiezawski, mestre de Filosofia de João Paulo II. Contou-me o provecto professor polonês que o Papa se hospedava em seu pequeno apartamento, sempre que ia a Varsóvia visitar o Cardeal Primaz D. Stefan Wyszynski, onde o então arcebispo de Cracóvia dormia humildemente no sofá da sala. O convívio com os amigos do Santo Padre me atestaram sua energia espiritual, sua profunda cultura filosófica e teológica, a par de sua permanente atenção ao outro – segredo de sua popularidade em escala planetária.

Os amigos do Papa porejavam cultura e fé religiosa , envolvidas numa poética simplicidade. Força interior e comunicação humana bem explicam a resistência polonesa ao longo da história contemporânea e a única nação em que a fé se sobrepôs abertamente à tirania e logrou pleno êxito.

Assim, João Paulo II se apresentou aos seus coetâneos e conquistou, num mundo cansado de relativismo gnosiológico e axiológico, porque carente de qualquer aceno à Transcendência.

O calvário de João Paulo II e sua morte atraíram as preces de milhões de fiéis e a respeitosa atenção de parte significativa da população mundial. A humanidade parecia ter consciência da grande perda que então se anunciava.

Após o ritual litúrgico do luto, os olhares se volveram para o Conclave, quando cento e quinze cardeais confiaram ao então Cardeal Joseph Ratzinger o cetro petrino. Não parecia possível que alguém pudesse suceder ao grande Papa João Paulo II. Tão logo eleito pelo colégio cardinalício, Bento XVI, com humildade e autenticidade, se revelou mercê da profundidade de sua fé ao proferir homilias de fina sensibilidade e de alcance teológico incomparável. Impôs-se à confiança e à admiração de todas as almas de boa vontade e começou a se mostrar na grandeza de sua espontaneidade espiritual.

Hoje, é ele o Papa de todos, aberto aos crentes e não crentes, pleno de fé e de amor pelos homens, designadamente os francos e oprimidos, os carentes de toda sorte, na esteira de João Paulo II. Na missa solene de inauguração de seu pontificado, Bento XVI assentiu que a “Igreja é jovem… Ela traz em si o futuro do mundo… A Igreja é viva e nós o vemos: experimentamos a alegria que o Ressuscitado prometeu aos seus”.

E adiante asseverou: “meu verdadeiro programa de governo consiste em não fazer a minha vontade, em não seguir a trilha das minhas idéias, mas, com toda a Igreja, de me colocar à escuta da palavra e da vontade do Senhor, e de me deixar guiar por Ele, de maneira que seja Ele-mesmo a guiar a Igreja nesta hora de nossa história”.

Ancorado no gênio de Santo Agostinho, o novo Papa põe suas complacências no amor, por acreditar que “só o amor…leva o Homem a si próprio e torna-o o que ele deve ser”.

O número que ora apresentamos aos nossos leitores principia com uma prece de fina sensibilidade originalmente redigida em francês e que encontrou em Ivan Junqueira, presidente da Academia Brasileira de Letras, o tradutor perfeito.

Alino Lorenzon nos brinda com consistente artigo sobre ética e moral em Paul Ricoeur. Alceu é lembrado pelo Pe. Djalma Rodrigues de Andrade.

O Pe. Paul Alexander Schweitzer, S. J., e o sociólogo José Arthur Rios (vice-presidente deste Centro) nos narram as razões de sua fé.

Registramos os dois pronunciamentos ocorridos na posse do Arcebispo Metropolitano de Aparecida, D. Raymundo Damasceno Assis, na Academia Brasiliense de Letras, com saudação do Pe. José Carlos Brandi Aleixo, S. J.

Na Pontifícia Universidade Católica de Santiago do Chile o professor Josef Seifert, também amigo pessoal de João Paulo II, presidiu o simpósio de inauguração da Academia Internacional de Filosofia, que vinha funcionando apenas em Liechtenstein. Integrando a instituição há duas décadas, coube-me proferir a conferência “Um tempo de esperança”.

Gustavo Miguez de Mello enfrenta o momentoso tema da pedofilia e Luiz Paulo Horta encerra o elenco de temas mercê de numerosos artigos já publicados em O Globo.

Uma nova diretoria inicia este ano sua caminhada em favor do Centro Dom Vital, ano que principiou com fatos de extrema relevância para os católicos do mundo inteiro e para quantos forcejam por humanizar o planeta dos homens em obediência a valores perenes. A ORDEM prossegue sua trajetória iniciada em 1921. O ideário que uniu o grupo católico resultou na fundação, no ano subseqüente, do Centro Dom Vital, atendendo ao apelo do Cardeal Dom Sebastião Leme de que a intelectualidade católica marcasse presença no cenário cultural brasileiro.

cdv

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