Apresentação – A Ordem – Volume 97

Apresentação

Luiz Paulo Horta

Membro da Diretoria do Centro Dom Vital e Redator de A Ordem

O novo número da revista A Ordem tem como seu centro de gravidade uma reflexão sobre Euclides da Cunha, cujo centenário de morte foi lembrado em 2009. Trata-se de um grande vulto da nacionalidade – e, mais que isso, de alguém que revelou ao Brasil e aos brasileiros dimensões insuspeitadas da nossa realidade. Pode dizer-se que, até Euclides da Cunha, impunha-se a visão de um Brasil litorâneo, ancorado nos modelos europeus, de costas voltadas para um ciclópico e ignorado interior. O gênio de Euclides sacode brutalmente este cenário, a partir do que começou como uma reportagem sobre o drama de Canudos. E aparece, de repente, o “outro” Brasil, desafiador, não domesticado, exigindo atenção e compreensão.

“Atualidade de Euclides” é um magnífico estudo sociológico de José Arthur Rios, onde se enfocam as contradições do nosso escritor, sua idealização do sertanejo, ideias curiosas sobre a mestiçagem. Tudo isso é contornado ou ultrapassado pelo milagre do gênio – a visão empolgante do país, da natureza, do choque entre realidades distintas. Rios enfoca o Brasil traumatizado pela República, espiritualmente esterilizado pelo positivismo. Neste cenário é que aparece o verdadeiro Euclides, que passa das idealizações científicas para a denúncia de um crime.

Na mesma linha, Tarcísio Padilha chama a atenção para a personalidade única do autor de “Os Sertões”, que ele compara a Unamuno – o grande escritor espanhol (ou melhor, basco) que era também um irrepetível. Ele mostra, em Euclides, a descoberta progressiva do enigma de Canudos, a compaixão pelos vencidos, e abre a porta para a discussão do que seria o milenarismo de um Antonio Conselheiro.

Discussão aprofundada por Maria Clara Bingemer em “Milenarismo dos ‘Sertões’ e a esperança dos pobres”. Lembra a autora que o Conselheiro falava de um Novo Reino. Daí o equívoco de achar que Canudos representava, na verdade, um baluarte de monarquistas derrotados. Mas, lendo os sermões do Conselheiro, Maria Clara identifica um discurso muito mais coerente do que o de um simples fanático, onde não há muito espaço para a tese do milenarismo. O que se vê, sim, é a formação e consolidação de uma comunidade, sob a liderança de uma figura muito forte.

Fechando essas reflexões, Maria Luiza Delleur sustenta que “Os Sertões” constituem obra inclassificável, que fica melhor situada no plano da criação literária. O texto de Euclides, segundo Maria Luiza, produz um saber que vai muito além das diversas disciplinas científicas. O talento literário permite que as diversas ciências se interpenetrem, que a geologia, a etnologia, a história se socorram umas às outras, e que na parte do Homem continue a projetar-se a Terra, cuja presença no livro é avassaladora.

Uma outra linha proposta neste número de “A Ordem” é a da espiritualidade contemporânea. D. Justino de Almeida Bueno, OSB, ante as discussões sobre o que seria esta espiritualidade, cita João Paulo II: “Não será uma fórmula que vai nos salvar, mas uma Pessoa, e a certeza que ela nos infunde: ‘Eu estarei convosco’ “. D. Justino refere-se ao risco de um reducionismo da experiência cristã por conta de uma preocupação aflitiva de engajamento no mundo. O que falta, segundo ele, mais que uma ideia correta de Deus, é uma experiência real do divino através da fé. E, nesse terreno, temos exemplos abundantes e poderosos, como o de uma Teresinha de Jesus.

Mais uma vez, a discussão é desdobrada por Maria Clara Bingemer, que fala da mística cristã, nos nossos dias, como a busca daquela experiência do sagrado. Um ponto de referência, aqui, é o livro seminal de Rudolf Otto que apareceu nos anos 20 – “O Sagrado” – onde se aborda em detalhe o “totalmente outro” que é o encontro com o transcendente. Como conciliar essa aspiração com a presença no mundo que faz parte da vivência cristã? Maria Clara apela, aqui, para a obra de Simone Weil, de que ela é profunda conhecedora, e que ilustra a coexistência de uma tendência mística e de um interesse apaixonado pelos “humilhados e ofendidos”.

De uma séria da Academia Brasileira de Letras dedicada à relação entre poesia e espiritualidade vem o retrato de São Francisco de Assis esboçado por Luiz Paulo Horta – uma história que nos devolve todo o frescor da experiência religiosa tal como ela acontecia nos pontos mais altos da cultura medieval.

Este número de “A Ordem” abre com conferência de Tarcisio Padilha alusiva aos 112 anos de fundação da Academia Brasileira de Letras. Tarcisio vem, desde as origens gregas, para mostrar a formação da ideia de Academia, e traz à luz os exemplos europeus que antecederam a existência da ABL – como o da Academia de Ciências de Lisboa. O modelo mais forte, com certeza, é o da Academia Francesa, criada por Richelieu – e Tarcísio detém-se em detalhes como a origem história das cadeiras azuis que hoje podem ser apreciadas no nosso Petit Trianon. Uma diferença importante entre a nossa academia e a de Paris é que a de lá vive até hoje à sombra do Governo, do apoio oficial – vassalagem de que a ABL foi-se livrando através de doações como a do livreiro Francisco Alves e, mais tarde, pelo talento político e “arquitetônico” de Austregésilo de Athayde. Tarcisio refere como a ABL vai surgindo e emergindo dos terremotos da República; como ela conseguiu escapar dos partidarismos que a teriam fatalmente destruído; e como, numa divergência entre Nabuco e Machado de Assis, acabou assumindo o formato imaginado por Nabuco – o de uma instituição que, além do literato puro, acolhesse também as “superioridades” representativas dos diversos setores da vida brasileira. Uma decisão que se mostrou sábia, e aumentou bastante a representatividade da ABL.

“Last but not least”, mencione-se o excelente artigo de Leandro Garcia Rodrigues – “Alceu Amoroso Lima e as contradições modernistas” – em que ele apresenta ideias vigorosas sobre o patrono do Centro Dom Vital e desta revista. É, ao mesmo tempo, um estudo perspicaz sobre o desabrochar do nosso modernismo. Quem tem o seu lado ruidoso, verde-amarelo (sobretudo nas imediações da Semana de 22) mas também outras correntes, como as que, no Rio de Janeiro, lançaram a revista “Festa” – um modernismo mais interiorizado, e que incluía uma abertura para a espiritualidade. Leandro explora as aparentes contradições do movimento – cultura popular x cultura de elite. Usando exemplos ilustres como o de Silvio Romero, mostra como o regional pode se transformar no universal. Mas a dialética central é a que opõe tradição e modernidade. Aparentemente inimigas; mas este é um terreno por onde Alceu viaja perfeitamente. Pois esta é toda a trajetória da Igreja – a memória que vem lá do fundo dos tempos e o diálogo que ela estabelece com cada uma das fases da experiência humana.

cdv

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