Editorial – A Ordem – Volume 84

Editorial

Tarcísio Padilha

diretor de A Ordem

Este número assinala e celebra o centenário de nascimento de Alceu Amoroso Lima, Heráclito Fontoura Sobral Pinto e Pe. Leonel Franca, S. J.

Alceu palmilhou as múltiplas veredas do saber, versando com proficiência a Literatura, a Filosofia, a Teologia, a Sociologia, o Direito, a História.

Sua vocação é a universalidade. Seu legado, o universalismo – cunho que imprimiu ao Centro Dom Vital, quando trágico evento privou esta Casa de Jackson de Figueiredo, seu fundador.

O Pe. Franca é o sábio e santo jesuíta, cuja presença apenas timidamente começa a ser reconhecida nos fastos do pensamento cristão.

Alceu e o Pe. Franca tinham um ponto de encontro diário: o altar do Sagrado Coração de Jesus da Igreja de Santo Inácio. Às 6,30 da manhã, o Pe. Franca celebrava a sua missa diária. É impossível descrever a santidade em seu quotidiano. A liturgia que se espraiou pelos cinco continentes a reproduzir a Palavra, por vezes, em sua rotina, pode nos ocultar a sua profunda e definitiva significação. Os santos nos propiciam o singular ensejo de sentir e captar a profundidade do mistério, porque eles são, no mundo visível, o testemunho do invisível. O comum dos homens vive enredado por problemas. O santo respira a atmosfera das soluções. As circunstâncias parecem não afetá-los, graças à opção radical que fazem e às quais se mantêm sempre fiéis. O Pe. Franca tinha uma hora certa para nos transmitir o mistério que lhe inspirava o pensamento e o coração. Nessa missa especial – espelho de sua riqueza interior – comparecia o grande convertido. Alceu com seu portentoso missal, contrito, acompanhava o ato maior da liturgia, na unção de sua fé emergente, à qual aportara mercê de longo e penoso itinerário.

Diariamente pude vê-los, na inocência das primeiras horas, a atestar a transparência da fé que nos irmanava e de que eles deram provas eloqüentes de acolhida e transbordamento.

O diálogo silencioso que então os unia na presença do Altíssimo fala mais claro do que as palavras poderiam bosquejar.

1993 assinala o centenário de nascimento de Alceu Amoroso Lima, do Padre Leonel Franca, S. J. e de Heráclito Fontoura Sobral Pinto. O Centro Dom Vital, e com ele, a Igreja do Brasil, muito devem a esses três ilustres pensadores e homens de ação. A riqueza da contribuição do Centro Dom Vital à cultura católica se prende nimiamente à exuberante produção e ação dos três vultos, cujo centenário ora celebramos.

Sobral Pinto despontou como um vigoroso defensor dos direitos humanos. Tribuno excepcional, homem de fé pura, destemido advogado dos deserdados e tenaz crítico dos poderosos, o menino de Barbacena, que verberara a violência de um soldado contra um indefeso e simples cidadão, se projetaria no cenário do País como uma das pilastras morais de sustentação. Não importa o por vezes diminuto apreço dos governantes às suas famosas epístolas. Sua imorredoura lição vincou com letras de fogo a sadia indignação sem a qual as nações se estiolam e morrem.

Nenhum dos três eminentes vultos desapareceu de nosso meio. Ao contrário, só a morte fixa o retrato definitivo do ser humano. Assim, agora é que nos damos conta do peso de sua presença, quando, vencidas as fronteiras da morte, eles continuam vivos por força da irradiação perene de suas mensagens. Até porque neles theoria e praxis não tinha limites definidos. Todos os três gigantes do cristianismo pátrio mesclavam o mais profundo pensar ao diuturno agir participante.

Para celebrar tais efemérides, recorremos ao concurso de reconhecidos mestres. Alberto Venancio Filho, Candido Mendes, Evaristo de Moraes Filho, Pe. Francisco Ivern, S.J., Gilberto Mendonça Teles, Marco Aurélio Mello Reis, Dom Marcos Barbosa, O. S. B., nos ofereceram contribuições antológicas sobre Alceu, Franca e Sobral.

Há, porém, um registro especial que como chave de ouro, concluímos este número. 1993 assinala no calendário da Igreja o cinqüentenário de ordenação sacerdotal do nosso Pastor. Daquele que vela sobre São Sebastião do Rio de Janeiro, o ínclito D. Eugenio de Araujo Salles. A ORDEM não se arreceou de intrujice, rompendo os limites invariavelmente impostos pelo excepcional Bispo desta cidade, arredio a quaisquer manifestações de apreço. Desta feita, não lhe respeitamos a intimidade. Quisemos urbi et orbi traçar o seu perfil. Cuidamos tratar-se de registro de cunho histórico, pois a personalidade de D. Eugenio suplantou a singularidade de sua notável biografia, para se situar num patamar institucional.

O traço comum dos ilustres vultos aqui singelamente retratados é a fé, a religião. Neles, a fé é viva, a religião é fonte de inspiração da própria existência. Um deles, porém, viu a fé emergir, após longo percurso, a confirmar haver uma presença ignorada de Deus nas almas que ainda não o encontraram. Ser religioso não é necessariamente confessar uma fé específica. As raízes da religiosidade se encontram nas profundezas da alma. No sentir de Paul Tillich, “ser religioso significa perguntar-se apaixonadamente pelo sentido de nossa existência”.

Maieuticamente, o encontro com Deus, a libertação pela fé constitui o difícil exercício pedagógico de saber indagar, questionar, perguntar-se. É a busca sincera de quem discerne os momentos privilegiados em que a luz alumia os caminhos e acredita que as sombras e o cinzento dos percalços apenas encobrem, no emaranhado das circunstâncias, a radiosa manhã da plenitude do existir.

cdv

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