Jornalismo Niilista: Os Abantesmas Teológicos de Arnaldo Bloch

Carlos Frederico Gurgel Calvet da Silveira

Presidente do Centro Dom Vital

 

Retrocedemos. De terça-feira a hoje, retrocedemos. No Globo de hoje, sábado, Arnaldo Bloch em sua coluna assusta-se com fantasmas, abantesmas teológicos: Animismo, Obscurantismo, Sadismo, Fundamentalismo, Golpismo poderiam ser os seus nomes. São, contudo, figuras conhecidas da crítica superficial e de propaganda enganosa, sobretudo contra a religião. Mas, repito: retrogradamos, para nos mantermos no campo semântico acusatório da Cora Rónai de terça-feira. Se esta jornalista praticava naquela ocasião um ‘jornalismo negativo’, Arnaldo Bloch degrada-se ao niilismo. E isto basicamente porque, em seu enfadonho artigo, de título alucinatório, “Veto do Cristo é Golpe de Estado”, o autor solapa seus próprios princípios. Defende o direito de liberdade de expressão, solapando o Direito e a Justiça.

O Direito que garante a liberdade de expressão garante também os direitos da Arquidiocese sobre a imagem do Cristo Redentor. Esta é a questão em pauta. Uma coisa é questionar o direito da Arquidiocese sobre a estátua, como insinua o próprio autor: “O direito, no momento, concedido à Igreja Católica sobre a estátua…” (grifo nosso). Outra é contestar o direito de preservação do culto e do que a ele se relaciona, que repudia “ultraje a ato ou objeto de culto religioso”(Art. 208 do código penal). A confusão entre estes dois níveis do direito, por se ter repetido durante a semana toda, parece então proposital. Até mesmo o presidente da Comissão de Direitos Autorais da OAB do Rio, Dr. Fábio Cesnik, que discorda do parecer da Arquidiocese, faz esta distinção em outra página da mesma edição de hoje do Globo.

Mas não é só isso. Há expressões claramente preconceituosas no texto de Bloch: “cruzada censória”, “bula”, “bulas medievais” (o adjetivo não podia faltar!) “fundamentalismo”, “narrativas milagreiras”. São expressões anacrônicas do imaginário de pessoas semicultas que, por isso mesmo, surtem os efeitos esperados pelo jornalismo niilista. Niilismo, entre outras coisas, é a negação da fundamentação da realidade. Por que, todos os dias, temos de ler no Globo e em outros jornais de grande circulação, os melhores do país, essa enxurrada de asneiras, de ignorância temática? O niilismo anulou o próprio jornalismo? Também os leitores informados devem estar cansados dessa propaganda.

Vamos aos “conhecimentos teológicos” de Bloch: “…uma vez que o catolicismo, que tem no animismo seu maior poder, (…) trabalha suas imagens de pedra, gesso, madeira, ouro, como se estivessem carregadas da substância divina”. Que é animismo? É aquela crença que defende que todos os seres, os corpos inclusive, têm vida, alma, enfim, são animados. Pode pertencer também a uma corrente filosófica, por exemplo, quando uma filosofia defende que o mundo é vivo, no sentido em que há uma “alma do mundo”. Ora, nada mais impróprio em relação ao Cristianismo. Para o Cristianismo, só têm animação os viventes, a saber, os vegetais, os animais e o homem, sendo que este último é animado pelo espírito.

Símbolos simbolizam, não há animismo nisto! Se a lei protege de ultraje os símbolos nacionais (bandeira, hino etc.), por que não protegeria símbolos religiosos? Estado laico não significa Estado indiferente à proteção das crenças e valores de seus cidadãos. Ofensas morais à representação de uma pessoa ou de uma instituição, não são ofensas morais a esta pessoa ou instituição? Xingar a fotografia de alguém, dirigindo-se à pessoa representada, não constitui xingamento? Escapa a Arnaldo Bloch a mais ululante tautologia: a representação representa algo.

A doutrina cristã, especialmente a Igreja Católica, também é contrária a qualquer fundamentalismo religioso porque, no fundo, é o fundamentalismo uma variante da descrença. A fé cristã procura mostrar seus argumentos racionais até onde isso é possível. No caso em pauta, não há dificuldade de ver que o direito de preservação da imagem de uma estátua, que não é viva, fundamenta-se na racionalidade do Direito que garante a liberdade religiosa que, para tal, preserva os símbolos e objetos de culto das religiões. É fácil reconhecer que o Cristo Redentor é também um símbolo nacional, então o desafio seria como conjugar um direito já assegurado constitucionalmente com os direitos de uso da imagem por quem não crê ou que, além de crer, queira usá-la em outras funções que não a de expressão de fé. Este é um verdadeiro desafio que o jornalista poderia abordar em sua matéria, pondo, assim, o problema no patamar dos argumentos e não da mera propaganda.

Parece que o texto da cena que foi revelado pelos produtores não é integral, contudo o que lemos não é facilmente aceitável. E não se trata somente de palavras, mas também de gestos, pois parece que a personagem na polêmica cena despede-se com um gesto obsceno à imagem do Cristo Redentor.

Enfim, a ausência de fundamentos e de argumentos numa questão de direitos não pode ser defendida por ninguém em nome da liberdade, menos ainda por Bloch, que é escritor, muito embora a acusação de hibridismo que ele atribui à Igreja Católica esteja presente em seu próprio artigo, tornando-o ambíguo e sem fundamento do começo ao fim. Quando trata da “Liberdade com “L” maiúsculo”, ninguém pode saber ao certo o que é isso. Sobra propaganda, faltam argumentos.

cdv