As Intrigas no Modernismo Brasileiro – Relatos Epistolares e Vida Literária

Leandro Garcia Rodrigues[1]

Diretor do Centro Dom Vital

Quando lemos sobre o Modernismo brasileiro nos manuais tradicionais de historiografia literária, temos a impressão de um certo pacifismo e um desejo mútuo de construção deste movimento artístico-literário. Estamos enganados. Percebemos que o movimento foi construído aos poucos entre as muitas divisões ideológicas, chegando mesmo na criação de vários grupos com tendências e “mentores” próprios. Nem sempre as relações entre esses diferentes grupos eram pacíficas, daí surgirem inúmeras intrigas entre os mesmos que nos permitem uma interessante visão dos relacionamentos entre os modernistas.

Neste sentido, o epistolário de Mário de Andrade e Manuel Bandeira é um bom depositário dessas intrigas, os dois amigos tinham uma total confiança recíproca que os permitia serem demasiadamente sinceros um com o outro, é quando acompanhamos os vários desentendimentos vividos por aquela geração. As cartas trocadas são testemunhas dessas tensas relações, tanto que o próprio Mário de Andrade, na sua crônica “Amadeu Amaral”, reconhece o valor das intrigas que elas narram:

Eu sempre afirmo que a literatura brasileira só principiou escrevendo realmente cartas, com o movimento modernista. Antes, com alguma rara exceção, os escritores brasileiros só faziam “estilo epistolar”, oh primores de estilo! Mas cartas com assunto, falando mal dos outros, xingando, contando coisas, dizendo palavrões, discutindo problemas estéticos e sociais, cartas de pijama, onde as vidas se vivem sem mandar respeitos à excelentíssima esposa do próximo nem descrever crepúsculos, sem dançar minuetos sobre eleições acadêmicas e doenças do fígado: só mesmo com o modernismo se tornaram uma forma espiritual de vida em nossa literatura. (ANDRADE, 2002, p. 136 – grifo nosso)

Desta forma, as brigas entre eles adquirem, sob um olhar crítico e atento, uma singular importância dentro da configuração do movimento.

1. Rio de Janeiro: um Palco de Rivalidades

É antiga a rivalidade entre cariocas e paulistas em vários aspectos da convivência: esporte, música, política, produção cultural etc. As cartas entre Mário e Bandeira retratam bem essas dualidades. Numa delas Mário fala desse afastamento: “Sensibilizou-nos teu interesse. Foste o primeiro dos amigos do Rio a nos demonstrar alguma simpatia. Por que esse afastamento? Será possível que em literatura se perpetuem as rivalidades de futebol? Manuel Bandeira, obrigado.” (ANDRADE, 2002, p. [2]

O ano desta carta é 1922, é a primeira que Mário escreve a Manuel Bandeira e os mesmos só estavam há quatro meses passados da Semana de Arte Moderna, ocorrida em fevereiro daquele mesmo ano. Bandeira recebe um exemplar da revista Klaxon enviado por Mário e demonstra um grande interesse, mostrando-se entusiasmado em divulgá-la no Rio de Janeiro; é quando Mário se mostra um tanto surpreso com a disposição de Bandeira. Este, quando recebe a carta do amigo paulista tenta anular qualquer aparente indiferença dos cariocas:

Não creia que haja por cá afastamento, indiferentismo pelos artistas de São Paulo. Ao contrário, desde que eles aparecem são prezados e queridos. Haja vista você, inédito e já de reputação feita aqui. O que há é uma dispersão formidável de metrópole. Não há aqui esse aconchego que permite a província. Já vivi em São Paulo onde cursei o 1º ano da Escola Politécnica (ia estudar arquitetura)[3] e posso dizer: São Paulo é uma coisa e o Rio é uma mistura de coisas onde também a coisa paulista entra. (ANDRADE, 2002, p. 65)

É interessante notar que em algumas de suas cartas, Bandeira apresenta o meio cultural da então capital federal como um eterno palco de brigas entre muitos, no qual conviviam entusiastas e algozes do Modernismo. Em 1925, o jornal carioca A Noite promoveu o Mês Futurista[4], com vários artigos diários sobre o Modernismo, chamado por muitos de Futurismo. Bandeira foi convidado por Viriato Correa, então redator-chefe, para fazer parte do grupo que colaboraria com trabalhos em defesa do Modernismo, é quando Bandeira questiona um tanto cético:

Prudentico[5] me transmitiu o convite para colaborar no mês futurista da Noite. Fiquei assim sem saber se posso fazer coisa que preste. De que é que se tem de falar? De modernismos ou de toda coisa sabível? Não vão apresentar a gente como bicho ensinado, não? Esse Viriato detesta modernismos, incluindo na rubrica futurismo até a ausência de rima. Se a Noite vai fazer esse mês, será unicamente por ordem do Geraldo Rocha[6], influenciado pelo Oswald, pois todos os redatores do jornal são adversários do nosso grupo. Não farão sacanagem? (ANDRADE, 2002, p.255)

O aparente medo de Bandeira é justificado, já que naquele momento o movimento ainda não estava totalmente consolidado, sendo construído com erros, acertos e dúvidas. Tais intrigas não se realizavam somente no meio literário, estavam presentes no meio artístico como um todo. Manuel Bandeira tinha vários amigos músicos, embora ele sempre afirmasse que não tinha muito conhecimento de teoria musical; frequentava as casas de Villa-Lobos[7], Germana Bittencourt[8], Jayme Ovalle[9] e outros tantos. Um desentendimento sério entre esses três músicos fez Bandeira escrever uma longa carta a Mário relatando o que ocorrera:

Nunca mais voltei à casa do Villa. Houve umas cenas muito desagradáveis entre o Villa e a Germana. Duas vezes: da 1ª não houve rompimento. Germana me procurou pra aconselhar-se. A história foi assim: a G. estava ensaiando o Caboclinho do Ovalle com a Lucília[10] e o Villa. Em certo pedaço a G. diz: “Isso é bem o Ovalle!” O Villa protestou dizendo que aquele ritmo já estava no Noneto, que a coisa toda aliás não tinha nenhuma originalidade e revelava uma porção de influências – Debussy, Fauré, René, Baton. Germana queimou-se e respondeu. Palavra puxa palavra, o V. acabou esbravejando “Que não queria mistura e que se G. incluísse as músicas do O. no programa, ele retiraria as dele”. […] Aconselhei a G. fazer tudo pra não brigar; aconselhei que nada contasse a ninguém e sobretudo ao Ovalle; mostrei o mal que adviria pra ela, pro V., pro 0., pra mim, pra todo o mundo se ela ou o Villa tomassem o pião na unha. […] Pois faz uma semana G. telefona toda afobada dizendo ter brigado naquele momento com o Ovalle e vinha em minha casa contar tudo. Chegou toda excitada chorando. Da 2ª vez a cena foi esta: estava ela com o casal conversando Germana disse que ia a São Paulo entre 15 e 20 cantar em duas conferências de Afonso Lopes de Almeida. O Villa estrilou que era uma falta de respeito pra com ele G. dar assim o fora nos ensaios para o concerto de coros dele Villa (ia realizar-se a 25 mais ou menos). Que antes de G. pensar no próprio concerto dela, devia pensar no concerto dele. G. explicou as encrencas de dinheiro dela. Deu a raiva nos dois e ambos se insultaram e se humilharam à bessa. G. disse que o V. não tinha caráter nem como artista nem como homem. V. que G. não valia nada, que nós é que a enchíamos de vento (mentira, pois nós vivemos espinafrando a G.), que o concerto dela é pura cavação e que se ela tinha necessidade de dinheiro ele daria um concerto em benefício dela. Quando G. enfim teve a idéia de dizer que ia embora ele gritou: “Pois puxe pra fora daqui”. (ANDRADE, 2002, p. 315)

Com esse relato de Bandeira é possível “sentir” o clima às vezes tenso entre os artistas daquela época, chegando mesmo às fronteiras das agressões verbais e morais. É interessante o relato que Manuel Bandeira faz de um concurso para a cadeira de Literatura Vernácula da antiga Escola Normal, ocorrido em 1930. Nesta época, Macunaíma já tinha sido publicado e a recepção do mesmo era a mais variada possível, a rapsódia escrita por Mário de Andrade era incompreendida por muitos e discutia-se se este “herói sem nenhum caráter” de Mário. No momento do referido concurso da Escola Normal, Macunaíma foi citado e fez parte das discussões. Manuel Bandeira assistiu o certame e comentou com Mário:

A propósito: Macunaíma veio à baila no concurso de Literatura Vernácula da Escola Normal. O Osvaldo Orico[11] esculhambou-o depois de não ter feito a menor referência na tese que era sobre mitos ameríndios. O Alceu[12] arguindo-o espinafrou com o Orico. Cheguei à sala no momento em que o A. irritadamente dizia que você podia ser no conceito de Orico um imbecil, um cretino, não obstante o Macunaíma representava uma contribuição que não podia ser calada sem grava falta: omissão imperdoável em tese de tal assunto. Orico engoliu. Depois o safadinho quis se valer do Macunaíma para justificar um avanço errado sobre a importância das contribuições tupis no léxico, ponto em que foi sovado pelo Alceu e pelo Nascentes[13], outro examinador.

__ Só no Macunaíma se encontram cerca de quinhentas palavras tupis.

Aí o malandro velho do Nestor Vítor[14] aparteou ironicamente:

__ Um livro que não vale nada…

A assistência caiu na gargalhada.

Mas não parou aí. Na prova escrita a Cecília Meireles[15] escreveu que o Bernardo Guimarães teve grande influência sobre a geração modernista, tanto que o sr. Mário de Andrade é autor de uma obra intitulada A escrava que não é Isaura. (ANDRADE, 2002, p.460)

Não levando em consideração os equívocos teóricos de Cecília Meireles, o fato é que este concurso provocou muita discussão nos bastidores. Numa carta a Alcântara Machado, Bandeira revela certos detalhes que nos ajudam a entender um pouco da atmosfera daquele evento:

O concurso […] tem dado que falar ao mundozinho da Livraria Católica […] tudo correu de maneira amena até dadas as notas da primeira prova: Clóvis Monteiro (irmão do Mozart) e Cecília Meireles 8,5; Homero 8; Sílvio Júlio 7,5, Orico 7. Aí os três últimos se queimaram. Homero se limitou a interromper o concurso. Orico veio para os jornais se declarando “enojado do safadismo desse crioulo que atende pelo nome de Antenor Nascentes e do senvergonhismo medular do velho Nestor Vítor, que Deus haja”. O Nascentes responde no Correio da Manhã de hoje dando a entender que o Orico é puto. O Sílvio Júlio, que andou espalhando que a Cecília usava e abusava dos seus olhos verdes dela para conquistar as boas graças do júri, teve que ouvir uma descomponenda da poetisa à vista de todo o mundo que acabava de presenciar o concurso. A Cecília, que é diserta, esculhambou o ibero-americanista e este não teve remédio senão agüentar firme e sem retrucar. (ARQUIVO ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO, IEB-USP)

É importante perceber que tais intrigas fornecem traços pessoais e comportamentais que a obra ficcional não revela, mostrando a importância de estudarmos o conceito de vida literária.

Em vários momentos da sua vida, Mário aproveitou o espaço que tinha na imprensa para se autodefender de alguns ataques, em algumas situações escreveu uma ou outra “carta aberta” para atacar certas pessoas que o destratavam. Bandeira não concordava com essa prática do amigo e sempre pedia que Mário se resguardasse e não se expusesse tanto; é o próprio Bandeira que fala a respeito dessas brigas:

Discordo de ti, achando que podemos perfeitamente atacar-nos em público e raso. Fazer o contrário não só é fingimento, visto que de fato divergimos e nos atacamos, como prejudicial por dar a impressão de queremos constituir panelinhas. Pouco me importa a perfídia dos adversários. O ataque de um adversário diverte-me quando é tolo e estimula-me quando é inteligente. O que me dói é a perfídia dos amigos. E estou verificando-a todos os dias. (ANDRADE, 2002, p.117)

O autor de Libertinagem revela um pouco do seu caráter equilibrado no que diz respeito à opinião alheia acerca dele e também da sua obra: os “ataques” lhe são importantes, já que os mesmos contribuem para o enriquecimento do seu estilo e da sua obra; é quando Bandeira revela o que realmente lhe deixava mais triste: a falsidade de muitos que se diziam “amigos”.

O ambiente artístico-literário do Rio de Janeiro estava bem dividido, havia muitas divergências ideológicas entre os modernistas da capital da República (como também acontecia em São Paulo). Manuel Bandeira formava um coeso grupo com Prudentinho e Sérgio Buarque de Holanda; do outro lado estavam Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida e Filipe d’Oliveira, todos “guiados” por Graça Aranha. Em alguns momentos o clima de divisão e rivalidade ficava deveras explícito, tanto que Bandeira revela ao amigo de São Paulo:

Estive na conferência do Guilherme. Estavam também presentes Graça, Ronald, Felipe d’Oliveira (na mesa), Rodrigo[16], Prudente e … Sérgio. A conferência justificou o juízo do Sérgio: “O mais que eles fizeram foi criar uma poesia principalmente brilhante: prova que sujeitaram uma matéria pobre e sem densidade”. Sérgio fez mouche, como diz Ribeiro Couto[17]. O Guilherme estava com tanta raiva dele que perdeu inteiramente … o quê meu Deus? E aludiu ao outro como um desses rapazinhos dúbios, efeminados, tomadores de cocaína. O Sérgio deveria ter-se levantado e agredido o Guilherme em plena conferência. Depois da conferência eu disse ao Guilherme que ele tinha feito mal. Ao que ele respondeu falando muito e dizendo uma porção de impropérios como este “que estes safadinhos iriam lamber o cu dele pois ele estava no Estado de São Paulo”!! Prudente e Sérgio, creio que intencionalmente, passaram diante do Guilherme sem falar com ele. Prudente com aquele raciocínio saudável e honesto concluiu que o Guilherme foi vil. (ANDRADE, 2002, p.318)

Esta atitude violenta de Guilherme de Almeida é explicada pois, alguns dias antes (15 de outubro), Sérgio Buarque de Holanda publicara na Revista do Brasil um artigo intitulado “O lado oposto e outros lados”, no qual afirmou:

São autores que se acham situados positivamente do lado oposto e que fazem todo o possível para sentirem um pouco a inquietação da gente da vanguarda. Houve tempo em que esses autores foram tudo quanto havia de bom na literatura brasileira. No ponto em que estamos hoje eles não significam mais nada para nós. (HOLLANDA, 1996, p.225)

Sérgio percebia que o movimento, embora jovem, já estava impregnado de ideologias que comprometiam os ideais nacionalistas da Semana de 22; certamente, é por isso que neste mesmo artigo, o autor de Raízes do Brasil louva incondicionalmente o nacionalismo crítico praticado por Oswald de Andrade. Enfim, a crítica tinha um direcionamento certo: Graça Aranha e o seu grupo, especialmente Guilherme de Almeida, todos do “lado oposto” do grupo de Mário e Bandeira. Essas revelações de Bandeira deixam Mário entristecido e o levam a escrever uma longa carta ao amigo do Rio de Janeiro; nela Mário se mostra equilibrado ao analisar os fatos e as pessoas citadas por Bandeira. No que diz respeito aos desentendimentos acontecidos na referida conferência Mário comenta:

Eu tenho feito em artigos muita restrição ao Gui e ao Ronald restrição que não aceitaram ou que discutiram porém não brigaram comigo. Porém quando citei a frase de você foi pra chamar sua atenção sobre uma coisa: é que Prudentico principalmente ainda mais que o Sérgio quando escrevem contra dão pras frases um ar de ataque que fere. Fazem a restrição com uma secura uma aspereza que pode ser peculiar neles porém faz com que os outros caiam na idéia de ataque. Sobre isso já me preveni bem porque sei que me atacarão e se o ataque vier assim não ressentirei porque pode ser feitio deles. […] Eu quando tenho um camarada procuro lhe ocultar os defeitos e quando sou obrigado a reconhecer estes, os reconheço porém amigamente. E creio que não sou nenhuma exceção. (ANDRADE, 2002, p.321)

Era próprio de Mário esse caráter mais apaziguador, embora em alguns momentos ele faça defesas e ataques com muita força. Mas, no geral, Mário é um tanto brando e mais diplomático, sabe como “atacar”. Todo esse clima leva Manuel Bandeira a considerar ser o Modernismo o culpado pela desunião dos amigos de outrora, tanto que ele o revela a Mário:

Eu sei, e compreendo bem, que você, o Ribeiro Couto gostam da poesia do R. e são sinceros. Já o R. C.[18] não tolera a do Guilherme. O que atrapalha tudo é essa história de modernismo. Que coisa pau! Parece uma putinha intrigante que apareceu pra desunir os amigos. Ninguém sabe definir essa merda, que todo mundo quer ser! Isso sempre me aporrinhou. Não tem a menor importância ser modernista! Vamos acabar com isso? Por enquanto o que acabou de fato foi o meu papel! (ANDRADE, 2002, p.326)

Com isso, percebemos que o Rio de Janeiro era realmente um palco “eternamente armado” para as brigas às vezes sutis, às vezes violentas daqueles cujos nomes figuram nos estudos da Literatura Brasileira. Não queremos dizer com esses relatos que São Paulo se caracterizasse pela paz intelectual, certamente o seu meio tinha as suas próprias intrigas e problemas. Todavia, no conjunto de cartas de Mário de Andrade e Manuel Bandeira, a posição sempre “armada” do Rio de Janeiro é mais proeminente e explícita. Mário desabafava com Bandeira problemas com terceiros que tivessem algum tipo de consequência diretamente ligada à sua pessoa, como aconteceu nos constantes conflitos ideológicos que teve com Graça Aranha e o seu grupo. Já Bandeira aproveitava da amizade e da confiança que tinha em Mário para relatá-lo incidentes envolvendo outras pessoas e não apenas ele, o que nos possibilita hoje fazer essa “leitura do Modernismo” que também se construiu através de relações em alguns momentos tensas e complexas.

2. O “Caso Graça Aranha”

Graça Aranha foi uma figura que provocou inúmeras reações dentro do movimento modernista; vangloriado por alguns e rebatido por outros, ele foi um divisor que formou um considerável grupo de simpatizantes ideológicos que sempre esteve em conflito com o grupo de Mário de Andrade e Manuel Bandeira. No início do Modernismo brasileiro, Mário de Andrade demonstrou uma profunda admiração por Graça Aranha, reconhecendo um grande valor naquele que fora capaz de entrar em conflito com a Academia Brasileira de Letras para defender mais intimamente o movimento modernista. É Mário quem escreve:

A propósito de Graça continuo a achar que tu e o Couto não tiveram razão em não homenagear o homem. Compreendes: por mais que ele se ponha na nossa frente, por mais que os coiós, daí, do Norte, do Sul até o Antônio Ferro[19] agora em Portugal digam que ele iniciou o modernismo brasileiro, as datas estão aí. E as obras. Agora o que ninguém negará é a importância dele para a viabilidade do movimento, e o valor pessoal dele. É lógico: mesmo que o Graça não existisse nós continuaríamos modernistas e outros virão atrás de nós, mas ele trouxe mais facilidade e maior rapidez pra nossa implantação. Hoje nós somos. Se o Graça não existisse, seríamos só pra nós, e já somos pra quase toda gente. […] Eu sei que também admiras o Graça. Eu, ainda mais, sou camarada dele, apesar de todos os defeitos feios que lhe reconheço. Ele saiu da Academia … Pois eu lhe mandei uma carta de solidariedade que esforcei-me por deixar sem nenhum laivo de ironia. A ironia vinha do sacrifício que ele fazia da Academia pra ganhar a grande glória de ser condutor de gentes. (ANDRADE, 2002, p.154)

É possível perceber ainda uma considerável admiração de Mário por Graça, tanto que o referido número da Klaxon em homenagem a Graça foi financiado unicamente por Mário, pois neste momento a revista já estava em séria crise financeira (inclusive esse número foi o último). Contudo, essa admiração vai logo ceder lugar a um sério repúdio de Mário pelo acadêmico. Quanto a Bandeira, podemos afirmar que nunca houve por parte dele uma simpatia por Graça Aranha, e tal fato ele nunca deixou de revelar ao amigo paulista, como nesta carta nesta carta de 1922, quando convidado por Mário para integrar o grupo de escritores que homenageariam Graça Aranha na Klaxon:

Quanto à “Doação dos Poetas” pesa-me, meu caro Mário, ter que dizer que não me sinto qualificado para tomar parte nele. Uma homenagem como essa que os klaxistas vão prestar ao Graça Aranha implica não só a admiração mas também e sobretudo a simpatia pelo homem e pela obra. É o que me falta, e seria insincero da minha parte aparecer ao lado de vocês. Admiro o Graça, mas sinto-o distanciado de mim. (ANDRADE, 2002, p. 76)

Mas o que provocava essa inquestionável repulsa de alguns modernistas para com Graça Aranha? Além da referida postura de Graça de querer ser a principal liderança do Modernismo, havia também um outro motivo: a “filosofia da alegria” defendida pelo autor de Espírito moderno.

Graça afirmava que o caráter do brasileiro se definia por uma eterna alegria, tal fato faria o diferencial na universalização da nossa cultura, seria uma espécie de “porta-voz” da brasilidade, ideia esta ironizada largamente por Mário e o seu grupo. Numa conferência proferida no Rio de Janeiro, Graça Aranha solidificou a sua crença na “perpétua alegria” do brasileiro afirmando: “Aos líricos da tristeza opomos os entusiastas da esperança. Venceremos pela alegria. Mais inteligente do que a tristeza, a alegria é a compreensão de que tudo é efêmero e exige ser realizada com vida na plenitude da força criadora.” ( ) Essa alegria é motivo de riso para Manuel Bandeira: “Nem Sérgio nem Prudentinho aceitam a filosofia de Graça. Fazem blague. Admirando, como todos, é claro, o mestre da perpétua alegria. (ANDRADE, 2002, p.156)

A partir deste momento, Mário passar a demonstrar uma total aversão a Graça Aranha; é quando tem início uma série de cartas que testemunham essa importante mudança paradigmática em Mário de Andrade. Numa longa carta enviada ao amigo do Rio de Janeiro, o autor de Clã do Jabuti afirma:

Agora ainda tenho de escrever uma carta pro Renato sobre o artigo bonito dele a respeito do Espírito moderno. Vou mostrar pra ele que ele tem muita contemplação com o Graça e formulo duma vez todas as queixas que tenho do Graça aliás de quem não sou amigo. Manuel […] me parece irremediável: quando se falar do nosso movimento pro futuro o Graça aparecerá como chefe dele e diretor das nossas consciências, o que é a coisa mais inexata e injusta que pode haver. Mas me parece irremediável isso. Dá raiva. Não porque eu pretendesse dirigir o movimento, creio que já bem provei a minha repugnância de ser diretor de consciência, não tenho coragem de assumir tanta responsabilidade porém dá raiva ver um homem aparecer de repente de longe e com a reputação que já tinha apossar-se duma coisa que ainda não sabia o que era mas que inteligente como era viu que viável, só porque tinha a esperança de que do livro dele, essa Estética da vida que é apenas uma síntese mal feita de filosofias orientais, saísse a renovação do Brasil. E como chegou no momento psicológico em que o Brasil estava com o nosso sacrifício se renovando, afeiçoou-se a essa renovação pra ser o manda-chuva dela. Quando o Osvaldo disse que o Graça desconhecia inteiramente o modernismo quando chegou no Brasil, disse a mais verdadeira das verdades. Leu o observou tudo o que estávamos fazendo, bem me lembro das palavras vagas que pronunciava ouvindo e vendo as nossas pinturas e poesia! E se apossou de tudo. Isso dói porque o sofrimento nosso embora continue a valer pelo que traz pelo Brasil foi se tornar pedestal dum homem que em nada nos influenciou. Em nada. […] Detesto o Graça. […] Graça querendo fazer do brasileiro um tipão alegre por… teoria filosófica e integração no Todo Infinito com uma incompreensão inteirinha do homem brasileiro que ele não observou, contrariando a psicologia natural desse homem, fazendo da alegria um preconceito. (ANDRADE, 2002, p.206)

Mário é bem claro no seu raciocínio, a pseudo-liderança de Graça Aranha o irrita, bem como a sua “filosofia” da alegria que caracteriza o diferencial do homem brasileiro, levando-o à universalização e posterior transcendência, introduzindo-o num “Todo Infinito”. As idéias de Graça Aranha denotam ama obtusa percepção do espírito modernista e das suas dinâmicas ideológicas; ele “apadrinhou” o movimento e quis dar um credo ao mesmo. Mas aos poucos, tal ideologia vai minando cada vez mais as relações de Graça com aqueles que discordavam dele, também minando as relações dentro do próprio Modernismo, a ponto de Bandeira desabafar:

Essa história de modernismo está mesmo extremamente aporrinhante. Sabe o meu sentir íntimo? É que o grupo precisa ser espatifado porque não há nele real espírito de camaradagem. Tudo o que você diz do Graça é justo. A coisa é ainda mais revoltante do que você pensa, pois aos olhos de muita gente o Graça é um ingênuo que está fazendo idealisticamente o jogo de meia dúzia de cabotinos!! Já ouvi dizer isso mais de uma vez. […] Sem querer influir na sua conduta, acho que você só deve ter intimidade de coração e inteligência com os seus bons amigos de São Paulo. Com os de fora, muita cautela. […] O Ronald não sabe o que é amar, verbo intransitivo. O Graça então é horrível. Eu, por mim, vou deixar de procurar toda essa gente porque é horrível sorrir pra homens que a gente não estima. Aliás tanto o Graça como o Ronald devem ter sentido a desconfiança com que por um momento eu me aproximei deles. E me arrependo. (ANDRADE, 2002, p.208)

Todos esses conflitos levam Mário escrever e publicar no jornal carioca A Manhã, de 10 de janeiro de 1926, uma “Carta aberta a Graça Aranha”, que veio à luz como uma bomba, aumentando ainda mais as distâncias entre os “partidos” modernistas e contribuindo para separar de uma vez os partidários de Graça dos demais. Nesta carta-artigo Mário afirma:

Você falha como orientador porque em vez daquele que imagináramos no começo, sujeito de idéias largas, observando a época e condescendendo com o Modernismo tal como ela e ele são […] você pela preocupação excessiva de si mesmo, pela estreiteza crítica a que essa preocupação o levou, está hoje sobrando em nosso despeito apenas como dogmático irritante, passador de pitos inda por cima indiscretos, e um modernista adaptado ao Modernismo apenas pelo desejo de chefiar alguma coisa. […] Você em Filosofia não passa dum interventor que vive abrindo portas abertas. (apud MORAES In ANDRADE, 2002, p. 305)

É explícita a aridez de Mário nas suas considerações acerca de Graça Aranha; todavia, este dava motivos, provocava a ira dos seus críticos com certas atitudes, como observa Bandeira:

Você sabe que não gosto nem um tiquinho do Graça. Ele é um intrigante. Agora mesmo anda espalhando que o Geraldo[20] é que sabe debochar a gente; que fez o mês pra debochar a gente; etc. Um amigo meu contou-me isso, sem revelar de onde partia, e estava tão interessado por mim que andou me telefonando para evitar que eu desse a colaboração. Não me encontrou pelo telefone, a minha primeira colaboração saiu e dois dias depois ele me encontrou na rua e falou-me . Eu disse a ele que a “mesa”[21] andava dizendo isso e que se a informação vinha dessa fonte ela era suspeita e não tinha importância. Ele não quis comprometer ninguém mas deixou transparecer que a intriguinha saiu dali. (ANDRADE, 2002, p.267)

A “mesa” ainda aprontará outras com os nossos missivistas analisados, havendo a necessidade de uma tese específica somente para analisar tais intrigas; mas e as brigas com os outros? Certamente, Graça Aranha e os seus “súditos” não foram os únicos contemplados com a ira recíproca de Mário de Andrade e Manuel Bandeira, outros também brigaram com os dois. Contudo, a presença de Graça foi muito forte chegando mesmo a constituir um “caso” particular. O modernismo estava bem dividido ideologicamente, o que levou o crítico Tristão de Athayde a escrever, em O Jornal, um artigo que demonstra esses separatismos de “direita e esquerda” dentro do nosso Modernismo, como bem esclareceu Marcos Antônio de Moraes:

Em “Um girondino no Modernismo I”, Tristão opõe a “esquerda” e a “direita” entre os modernistas brasileiros. Os jacobinos encabeçados por Oswald de Andrade perpetuavam, segundo o crítico de O Jornal, a “concepção radical e suicida da poesia”; os girondinos, entre os quais Guilherme de Almeida se incluía, abraçavam “a anuência ao novo sem sacrifício total do antigo. A revolução das formas com a conservação da essência”. Assim, contrariamente ao “instinto demolidor” dos primeiros, os girondinos desagregam para melhor exprimirem, julgam eles, uma sensibilidade mais sutil, ampla, reticente, que se sente insatisfeita em moldes rígidos, em formas regulares. Procuram, portanto, a destruição da forma […], não por uma radical pessimismo, por um espírito demoníaco de negação, como os suicidas do pau-brasil – mas por adaptarem a forma poética à sua sensibilidade dispersa e vaga. (nota deslocada, apud MORAES In ANDRADE, 2002, p.223)

Podemos dizer que Graça Aranha fazia parte dessa “direita” do Modernismo brasileiro, como também o fazia Guilherme de Almeida, citado na nota anterior; a “esquerda” era composta por Mário, Bandeira, Oswald e outros tantos “rapazes”. Manuel Bandeira sempre se mostrou um tanto “frio” frente aos problemas de convivência com os seus desafetos, procurando não absorver para si os problemas alheios, tinha uma espécie de “autodefesa” que lhe permitia um certo distanciamento. Mário de Andrade já se comportava diferente, somatizava mais as dificuldades de convivência com os demais, procurando sempre uma razão para tudo o que acontecia; sua sensibilidade extremada o fazia sofrer por causa dos outros, provocando-lhe inúmeros momentos de depressão e dificultando-lhe o convívio com os demais

Todas essas intrigas narradas e comentadas nos fazem perceber a importância do estudo dessas cartas, elas são testemunhos narrativos de fatos que contribuem para essa nossa “leitura” do Modernismo. Os desentendimentos entre as principais figuras do movimento revelam as dinâmicas desse mundo marcado pela heterogeneidade ideológica e comportamental, permitindo-nos um olhar mais crítico e compreensivo dos autores envolvidos, bem como de suas respectivas obras.

Referências Bibliográficas

ANDRADE, Mário & BANDEIRA, Manuel. Correspondência Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Edição Preparada por Marcos Antônio Moraes. São Paulo: EDUSP, 2002.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. O Espírito e a Lei. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

RODRIGUES, Leandro Garcia. Alceu Amoroso Lima – Cultura, Religião e Vida Literária. São Paulo: Edusp, 2012.

_________________________. Uma Outra Leitura do Modernismo – Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2003.

[1] Doutor e Pós-doutor em Estudos Literários pela PUC-Rio. Contato pessoal: prof.leandrogarcia@hotmail.com. Texto publicado como artigo científico na Revista da UNIABEU, v. 6, no. 14, 2013.

[2] Carta a Manuel Bandeira, 6 de Junho de 1922.

[3] Manuel Bandeira se muda para SP em 1903, permanecendo lá até o final de 1904. Nesse período, o poeta estuda e também trabalha nos escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana, freqüentando também um curso noturno de ornato no Liceu de Artes e Ofícios.

[4] Mário teve a responsabilidade de selecionar os colaboradores do “Mês Futurista”, que durou de 12 de dezembro de 1925 a 12 de janeiro de 1926. Em 29 de novembro daquele ano, Mário apresenta ao jornal a ordem estabelecida: segunda-feira, Carlos Drummond de Andrade; terça, Sérgio Milliet; quarta, Manuel Bandeira; quinta, Martins de Almeida; sexta, Mário de Andrade e sábado, Prudente de Moraes, neto. A primeira reportagem do “Mês” foi uma entrevista de Viriato Correia com Mário de Andrade intitulada “Assim falou o papa do futurismo”.

[5] Francisco de Paula Prudente de Moraes era carinhosamente chamado pelos amigos de “Pru”, “Prudentico”, “Prudentinho”; com Mário e Bandeira o neto do presidente Prudente de Moraes teve uma sólida amizade. Usou o pseudônimo “Pedro Dantas” para assinar vários dos seus trabalhos.

[6] Geraldo Rocha era o proprietário do jornal A Noite.

[7] Villa-Lobos teve os primeiros contatos com os modernistas paulistas através de Graça Aranha e Ronald de Carvalho, que o convidaram para participar da Semana de Arte Moderna em 1922. Mário defendia muito a sua música, que para ele era tinha um nacionalismo crítico. O vanguardismo de sua música se deu em decorrência de um aproveitamento das nossas raízes musicais populares associado à sólida formação erudita que teve. Incompreendido por muitos, principalmente no Brasil, Villa-Lobos conseguiu um grande reconhecimento no exterior, especialmente em Paris.

[8] Germana Bittencourt (a Germaninha) era estimada por Manuel Bandeira, porém rompeu a amizade com Mário de Andrade pois ela tentou divulgar na Argentina várias canções folclóricas colhidas por Mário no Nordeste sem a autorização deste. Faleceu em 1931.

[9] Jayme Rojas de Aragón y Ovalle foi amigo de Manuel Bandeira. Musicou vários poemas de Bandeira e publicou-os com o título Azulão, Modinha e Berimbau, que o consagrou dentro e fora do Brasil.

[10] Primeira esposa de Villa-Lobos.

[11] Osvaldo Orico (1900-1981). Poeta e ensaísta, Orico ocupou o cargo de Diretor de Instrução do Distrito Federal e mais tarde professor da Escola Normal; publicou Os mitos ameríndios: sobrevivências na tradição e na literatura brasileira.

[12] Alceu de Amoroso Lima (1893-1983). Sob o pseudônimo “Tristão de Athayde” escreveu inúmeras críticas literárias ao longo de décadas no jornalismo e na produção acadêmica universitária. Foi amigo dos modernistas, embora no início do movimento tenha se mostrado um tanto céptico em relação ao mesmo. De sua vasta obra destacamos: O espírito e o mundo (1936), O crítico literário (1945) e Introdução à Literatura Brasileira (1956).

[13] Antenor Nascentes. Filólogo e gramático, foi grande amigo de Bandeira, a quem o poeta geralmente recorria nas suas dúvidas sobre Gramática.

[14] Nestor Vítor ( 1868-1932). Foi crítico literário e professor do Colégio Pedro II; colaborou durante longos anos em jornais como O Globo e Correio da Manhã. Publicou Cartas a gente nova.

[15] Cecília Meireles (1901-1964). Poetisa e também educadora, tendo colaborado durante vários anos no Diário de Notícias com artigos sobre educação; como poetisa, seu estilo sempre foi marcado por um tom existencialista com tendências simbolistas, fazendo um relacionamento profundo entre os valores eternos e efêmeros. Publicou Espectros (1919), Viagem (1939), Vaga música (1942), Mar absoluto (1945) e Romanceiro da Inconfidência (1953).

[16]Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969). Foi advogado e jornalista, tendo se destacado no trabalho exercido no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional entre 1936 e 1968.

[17] Ribeiro Couto (1898-1963). Foi responsável direto na aproximação de Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Publicou O jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e melancolia (1924) e Cancioneiro de Dom Afonso (1939).

[18] Trata-se de Ronald de Carvalho.

[19] Antônio Ferro (1895-1956). Foi um dos editores de Orpheu, revista da vanguarda futurista portuguesa. Viveu quatro meses no Brasil e teve profundos contatos com os nossos modernistas, escrevendo o manifesto antiburguês Nós e colaborando em Klaxon. Publicou Estados Unidos da Saudade (1949).

[20] Geraldo Rocha.

[21] Mário e Bandeira se referem metaforicamente à “mesa” em decorrência de uma fotografia tirada por Graça Aranha, Ronald de Carvalho e Renato Almeida em 18 de março de 1922, todos sentados em volta a uma mesa.

cdv

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